sábado, 13 de novembro de 2010

Eu sou de ninguém,
eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também

   Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também.
   No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração tribalista dirigem-se aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição.
   A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu. Três ou quatro horas é pouco para gastar os hormônios e há alguns que dizem não precisar mais que isso. Mentira. Quem não precisa ter alguém pra chamar de seu?
   Mas, infelizmente não dá para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não se permitir ser de algúem. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, não se sentir seguro com relação ao companheiro (companheiro???), perceber-se sozinho... etc, etc.
   Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas, a troca de cumplicidade, carinho e amor, Está alheio ao sentimento de satisfação por ter alguém pra dividir palavras e silêncio sem medo de ficar constrangido.
   Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para amar.
   Somos livres para optarmos! E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico, é permitir-se viver um sentimento e dar-se a oportunidade de ser feliz dividindo felicidade... Se a geração tribalista imaginasse o quanto é gostoso ser de alguém e ter esse alguém só pra você, permitir-se-ia viver esta aventura não efêmera!

  • Crônica de Arnaldo Jabor, adaptada.

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