O que leva duas pessoas a viverem juntas durante décadas? O que as leva a aceitarem-se como são? O que as faz perdoarem-se, cuidarem-se? Acredito que todos responderiam: o amor. Mas amor não é o nome que dão àquele sentimento que leva as pessoas a unirem-se rapidamente e que também acaba rapidamente, fazendo com que elas se separem? Não é de amor que chamam essa paixão repentina? Será que o amor hoje é diferente do amor de antigamente... Será que o amor mudou?
Não. As pessoas é que mudaram. O homem moderno não tem tempo para pensar no amor, e por isso não o vive. Exercer o amor vai muito além de sentir, na verdade é uma questão de decisão. Pode sim começar com uma paixão avassaladora, mas para transformar-se em amor serão necessárias atitudes, e para agir é preciso decidir.
Ao ler Enquanto a noite não chega, de Josué Guimarães, algo me inquietou. Perguntava-me porque os casais de antigamente viviam tanto tempo juntos e hoje basta estar casado para separar-se. Mas lembrei-me que ainda existem casais comemorando bodas de prata e de ouro, ainda há respeito, consideração e cuidado mútuos, ainda há casais que conseguiram construir um relacionamento duradouro e feliz, mesmo que pareçam estar nadando contra a maré.
Imagino que dom Eleutério e dona Conceição tiveram algumas briguinhas no passar daqueles longos anos em que viveram juntos. Com certeza houve momentos, não poucos, em que discordaram, talvez ficaram alguns dias sem se falar, é provável que tenha existido ao menos um dia em que repensaram o amor: será que ele ainda existe? Talvez esteja apenas escondido atrás da raiva ou da incompreensão... E é exatamente neste instante que as atitudes amorosas entram em cena para reavivar o sentimento amor, então adormecido.
Era nítido o carinho que tinham entre si, e o manifestavam, muitas vezes, sem palavras. Dona Conceição procurava cuidar do seu amado de todas as formas que podia e demonstrou isso ao oferecer-se para aparar sua barba: “mostrava-se muito disposta (...) e ela tratava de compensar o tremor das mãos com a firme decisão de acabar com a tarefa” (GUIMARÃES, 2009, 46). E dom Eleutério não se esqueceu de agradecer: “Depois sorriu aberto e disse que estava muito grato pelo serviço” (Idem, ibidem).
Atualmente atitudes tão simples, porém muito importantes, estão caindo em desuso nas relações amorosas. Por favor, com licença, desculpe-me são palavrinhas mágicas que não poderiam jamais faltar. Afinal, como pode uma relação ser amorosa se os envolvidos não se comportam amorosamente, se não manifestam atos de amor? Vince Lombardi disse que “o amor respeita a dignidade e a individualidade” (HUNTER, 2004, 72), e respeito não tem nada a ver com sentimento, não respeitamos nosso novo vizinho porque o amamos, mas nos comportamos amorosamente porque o respeitamos como ser humano, e sabemos que tem qualidades, defeitos e limitações como nós mesmos e como qualquer outro. Hunter (2004) lembra-nos de que não podemos controlar o que sentimos a respeito de outras pessoas, mas podemos controlar como nos comportamos em relação a elas. E usa, muito apropriadamente, a definição de amor contida na Bíblia, na primeira carta aos Coríntios, capítulo 13, para demonstrar que amor é muito mais agir do que sentir:
É o capítulo 13. Diz, em essência, que o amor é paciente, bom, não se gaba nem é arrogante, não se comporta inconvenientemente, não quer tudo só para si, não condena por causa de um erro cometido, não se regozija com a maldade, mas com a verdade, suporta todas as coisas, agüenta tudo. O amor nunca falha. (HUNTER, 2004, 77-78).
Sob a luz dessas considerações, posso constatar que o que leva duas pessoas a viverem juntas durante décadas é realmente o amor, mas não somente aquele sentimento arrebatador que aperta e alegra o coração, mas principalmente o comportamento, pois este é a terra onde as raízes daquele se firmarão.
Sendo assim, se a essência do amor estivesse contida nos atos habituais de cada casal, de cada família, entre amigos e entre parceiros de trabalho, entre as pessoas que lotam um ônibus ou a sala do cinema, haveria menos discussões vazias de racionalidade, menos assassinatos, menos violência em geral, menos famílias desfeitas e mais relacionamentos duradouros. Como antigamente.
Tati.
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